domingo, 8 de fevereiro de 2009

Ver o que outros andam a fazer

Paul Emmanuel





Lost Men Moçambique

"Esta obra delicada com imagens imprimidas num tecido transparente, duma maneira ou outra, conversa com lembranças de todas coisas perdidas em geral relacionadas aos vários conflitos que culminou com a independencia de Moçambique."





Lembram-se desta intervenção em Maputo? Foi em 2007 no cais do Ferry para Catembe

Acompanhem aqui o que faz este artista sul africano


4 comentários:

Cristina disse...

Parabéns pelo blog! Gostei bastante do q li e vi.

Anónimo disse...

As imagens do tecido näo querem ser por mim vistas. Jà tentei inùmeras vezes acessar ao "AQUI" indicado mas nada.E como näo acompanhei à esse evento em 2007, fico mais curioso ainda.

Félix Mula

Anónimo disse...

Escrevi este texto para o Jornal meianoite em 2007 depois de ter acompanhado todo o processo de negociação para a montagem, e a inesperada remoção deste trabalho.

O trabalho intitulado “The Lost Men Mozambique” do artista Sul-Africano Paul Emmanuel foi colocado na ponte do Ferry-boat de Maputo/Catembe.

A medida que as sociedades vão evoluindo, a arte vai se transformando ou se metamorfoseando, levando consigo uma séria de preocupações dos artistas com intenção de integrarem-se e de identificarem-se com as novas e continuas realidades que se apresentam. Partindo da preocupação da visão do outro – trabalho/público - ou da relação entre a sua intervenção e a visão do outro – artista/público - e a procura constante do ser compreendido num espaço de comunicação onde os códigos deveriam ser comuns sem que o artista deixe de ser único e singular nas diferentes formas de articulações desses códigos. A arte se colocando de forma diferenciada de si mesma. É nesta dicotomia que os artistas vão trabalhando.

Os “novos artistas”, acabam por se definir por estratégias, actos e meios, mostrando-se diferentes, de alguma forma descontentes com a normalização e convenções das formas de expressão a arte pública – os monumentos em praças públicas, os murais de carácter político, os grandes formatos para os espaços exteriores e intervenções públicas que hoje se camuflam nos actuais sistemas de domínio ideológico – altamente politizados e direccionados, afastam determinados artistas, que trabalham em determinadas possibilidades temas e abordagens do poder político e ideológico.

O trabalho “The Lost Men Mozambique” levou-me a certas reflexões por ter passado por uma censura sem precedentes. A democratização da arte, a fácil circulação dos artistas internacionais, a complexidade nas variantes formas que a arte pública se apresenta hoje, faz com que censura venha por parte das estruturas de poder político e social, de onde os artistas menos esperam e de onde contam com alguma protecção para as suas criações. Há não ser que estes sejam os seus alvos de ataque…

A Polícia da República de Moçambique – que representava a censura e o poder - teve um acto considerado por nós artistas no mínimo repugnante, que provocou um silencio inexplicável por parte da comunidade artística. Parte do trabalho foi removida logo após a sua montagem e mais tarde e remoção total da mesma. O argumento que as estruturas de poder tiveram desde o início foi: as imagens apresentavam sugestões de órgãos genitais e partes do corpo humano sensuais. Mas, o que não se compreende, é que este trabalho foi anteriormente aprovado pelo Conselho Municipal da cidade de Maputo.

O paradoxo de tudo isto é que na sociedade Moçambicana, particularmente a na cidade de Maputo, os munícipes estão familiarizados a situações onde homens e mulheres a urinam nas artérias da cidade a luz do dia. Expõe algumas vezes os seus órgãos genitais. Na música, na dança e outras formas de expressão há cada vez mais presença de erotismo e sexualidade. Na escultura, na pintura se tornou comum a representação de órgãos genitais.

O Projecto de The Lost Men foi lançado ao público e à imprensa no ano 2004 durante o Festival Nacional de Artes em Grahamstown na África do Sul. Foi no entanto, a única exibição na África do Sul. Os nomes gravados eram de pessoas mortas durante o período do Apartheid. Em Maputo surge da experiência pessoal que Paul Emmanuel teve quando tomou conhecimento do luto e das lembranças de guerra de libertação de Moçambique por parte dos moçambicanos.

A travessia de Maputo para Catembe é um ponto de partida e chegada dos residentes das duas partes da cidade e que permite ao espectador algo para contemplar. O trabalho se apresenta ao logo da ponte como várias bandeiras. As gravações dos nomes que aparecem nos corpos são de pessoas anónimas ou conhecidas que perderam a sua vida na luta de libertação. Estes nomes foram conseguidos através de uma pesquisa no terreno.

A preparação, concepção e apresentação do trabalho se encaixaria perfeitamente no que se convenciona de arte pública - trabalho/público nos espaços públicos – onde toda a lógica que envolve este processo de consolidação, está estruturado e direccionado ao público. Ficando o artista um arquitecto de códigos para este fim.

Esta intervenção foi totalmente removida pelas autoridades nacionais e não se sabe as suas razões. Ficaria aqui uma perguntinha. Será necessário censura nesta direcção?

Jorge Dias

Anónimo disse...

Boa noite Jorge e à todos,
A sua anàlise é interessante, de facto, em Moçambique as instâncias responsàvies pela defesa das boas maneiras, ou seja, da moral pùblica, exercem os seus deveres de uma maneira muito selectiva.
Sendo as artes, sobre tudo as plàsticas, uma practica onde reina a sensibilidade, a sua perseguiçäo tinha que ser antecedida por uma anàlise muito profunda, de modo a se perceber o que està detràs da sua manifestaçäo.
Hà muita coisa torta uo entortecida que os seus responsàveis deviam por ela se preocupar do que perder tempo em tentar perceber a arte, munindo se de mentes destruidoras.

Näo sou là muito bom nos discursos contra a violência porque por mim ela nem devia existir.

Félix Mula